Qualidade de vida e casa dos sonhos compensam o ‘bate volta’ diário

Bernardo, 4, sobe em árvore, joga bola e anda de bicicleta. “Ele é um moleque de rua. Quase não vê TV ou brinca com tablet”, conta o pai, o advogado e professor universitário Carlos Abrão, 45.

Esse estilo de vida só é possível porque a família trocou um apartamento de 49 m² no Sumarezinho, zona oeste de São Paulo, por uma casa de 300 m² em um loteamento fechado, localizado entre Jundiaí e Cajamar, a 50 quilômetros da capital.

A mudança ocorreu há oito anos, quando o professor e a mulher, a nutricionista Regina Abrão, se sentiram “expulsos de casa” por um bar sem alvará que foi aberto na rua em que eles moravam. “Nada contra, mas não queria ouvir forró às duas horas da manhã. Não aguentava mais”, conta ele.

O plano era ir de mala e cuia para o interior, mas a ideia de abrir um escritório de advocacia em Jundiaí não vingou. “Decidimos arriscar”, diz Abrão que, na época, conseguiu um emprego na praça da Sé.

“Ficou muito claro desde o início que, apesar de ter de pegar a estrada todos os dias, isso era compensado por vários fatores, como a qualidade do sono.”

Atualmente, ele trabalha como professor em uma universidade na capital. Sai de casa antes das 6h30 ou depois das 9h30, para evitar o trânsito mais pesado. Como dá aulas até tarde, diz que não enfrenta congestionamentos na volta.

“As aulas são no bairro do Butantã, faço o trajeto em 30 ou 40 minutos. Uma vez por semana, dou aula na Mooca. Mas não demoro mais do que uma hora e dez minutos”, diz ele. “Não é fácil. Você tem que estar sempre muito atento, acordado.”

LITORAL E INTERIOR

A obra do Rodoanel e as melhorias das estradas que ligam o interior e o litoral a São Paulo tornaram o ‘bate e volta’ mais rápido e seguro, diz Caio Portugal, presidente da Aelo (Associação das Empresas de Loteamento e Desenvolvimento Urbano).

“Por conta das privatizações e concessões, nove entre as dez melhores estradas do Brasil estão em São Paulo”, diz Portugal. Ele afirma que o público, na maioria, é formado por casais. “É uma opção interessante para quem busca lazer, segurança e áreas verdes”, diz.

Muita gente, por exemplo, tem optado por morar em Santos, mas continuar trabalhando em São Paulo.

“Santos tem toda a infraestrutura da capital, com boas escolas, comércio e serviços em geral, mas com mais segurança, tranquilidade e aproximação com a natureza. Quase 60% dos nossos clientes são de São Paulo”, afirma Flávio Barros, diretor comercial da imobiliária Abyara Brasil Brokers.

Ele se mudou para Santos há quase dez anos, mas segue na rotina diária do ‘bate e volta’ por conta de reuniões.

Por lá, como não há mais espaços para loteamentos, o que se lança são edifícios, mas os custos são bem mais baixo do que os praticados em São Paulo.

“O metro quadrado de um apartamento no miolinho do bairro Boqueirão, que é uma zona nobre de Santos, sai por cerca de R$ 9 mil. Numa área semelhante, em São Paulo, o metro quadrado não sai por menos de R$ 15 mil”, diz.

Além dos preços menores dos imóveis, o custo de vida fora da capital também costuma ser uma motivação. “Meu filho estuda em Jundiaí, numa escola de pedagogia Waldorf. Em São Paulo, meus amigos pagam R$ 2.000, R$ 2.500 de mensalidade. Aqui gasto R$ 1.200”, diz o professor Carlos Abrão.

O empresário Fernando Fernandes, 37, concorda: “Hoje moro numa casa de 350 m², com piscina, churrasqueira e academia”, diz ele, que pagava R$ 425 de condomínio em um apartamento de 68 m² na Grande São Paulo e agora gasta R$ 231 no loteamento fechado Villa Rica, em Vargem Grande Paulista, a 50 km de São Paulo.